Inpa participa do resgate de 12 botos de nova espécie nos estados do Pará e Tocantins

Operação foi montada para tirar os animais da água, escassa por causa da seca ou pela irrigação das plantações. Descrita em 2014 pelos pesquisadores, espécie é exclusiva da Bacia do Tocantins-Araguaia.
por ASCOM - publicado 05/09/2016 19h33. Última modificação 22/05/2019 15h51.
Inpa participa do resgate de 12 botos de nova espécie nos estados do Pará e Tocantins

Pesquisadores do Inpa participam de operação de resgate de botos nos rios do Pará e Tocantins.

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) participou do resgate de 12 botos da espécie Inia araguaiaensis, descrita pela primeira vez em 2014. Com o baixo nível da água, provocado pela seca ou pela captação de água para a agricultura, os animais ficaram encalhados em rios do Pará e de Tocantins, a uma distância de 300 quilômetros. Uma grande operação foi montada para retirar os botos da água com a participação do Inpa, Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), Ibama, Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Tocantins e Agência de Meio Ambiente do Tocantins. Após o resgate, os animais foram levados para o rio Javaés, também na bacia do rio Araguaia.

No primeiro resgate, três botos foram encontrados no rio Maria, próximo ao município Floresta do Araguaia (PA). Entre eles, uma fêmea adulto tinha marcas de tiros e estava muito debilitada. "Encontramos vários orifícios de balas de chumbo de espingarda de caça, que são muito usadas por pescadores para afastar os botos das redes e do cardume e também por pessoas que praticam a ‘pesca esportiva'", disse a pesquisadora do Inpa Vera da Silva, que coordena o Projeto Boto.

Para retirar os animais do local, foi necessário carrega-los por cerca de 150 metros ao longo do leito seco do rio. Colocados em um caminhão, foram levados pela estrada de barro durante 1h30. Segundo a pesquisadora, nunca houve um resgaste desta magnitude, por longa distância, com os animais debilitados e muito tempo fora da água.

Segundo resgate

A 300 quilômetros do primeiro resgate, nove botos estavam encalhados no rio Formoso, afluente do rio Araguaia, próximo ao município Lagoa da Confusão (TO). Do Pará até o local, foram seis horas de carro pela estrada e mais uma hora em estrada de terra. Os botos estavam no trecho do rio onde há três bombas de captação de água para irrigação das fazendas de soja, milho e arroz. De acordo com a Agência de Meio Ambiente do Tocantins, cada uma bombeia cerca de 1.800 metros cúbicos de água do rio por hora. "Por isso, com a redução rápida do nível das águas, os animais ficam empossados", contou Vera.

O resgate foi realizado três dias após o desligamento emergencial das bombas de irrigação, e a agência determinou a proibição da captação de água nos rios da região durante a seca.

Bombeamento prejudica meio ambiente

Segundo a pesquisadora Vera da Silva, que é doutora em reprodução e ecologia de mamíferos pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, esse tipo de ação prejudica todo o sistema ecológico. Fauna e flora da região são penalizados com o bombeamento desenfreado. "Visto que o rio Araguaia é habitat natural de botos, peixes, tartarugas, jacarés, que também ficam encalhados e acabam morrendo, é preciso que os órgãos competentes fiscalizem de modo severo com hidrômetros e controlem com mais rigor o período de pouca agua na região", defendeu.

Nova espécie

Descrita em 2014 por pesquisadores do Inpa e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a nova espécie de boto resgatada nos rios do Pará e do Tocantins é exclusiva da Bacia do Tocantins-Araguaia e já está isolada pela hidrelétrica de Tucuruí. "Essas espécies já não tem conexão com o estuário do Amazonas. Os animais estão sofrendo ameaças da mudança do próprio ambiente, causada não apenas pelas mudanças do clima, mas principalmente pelas ações do homem", finalizou a pesquisadora.

Financiamento

O resgate foi financiado pelo o Aquário de São Paulo e pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), que atuam em parceria com o Inpa. Além da pesquisadora Vera da Silva, seis profissionais associados ao laboratório de Mamíferos Aquáticos do Inpa participaram do resgate: a bióloga Estefani Fugita; os veterinários Rodrigo Amaral e Nívia Do Carmo; e os pescadores Ney Lopes, Sidinei e Moisaniel.

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